Sensacionalismo e propaganda política – unindo o útil ao agradável
Junte uma militante da esquerda radical de Israel com uma causa a vender e uma jornalista disposta a um furo sensacionalista e o resultado será a matéria publicada no site Terra por Guila Flint sobre os livros escolares israelenses.
A matéria “Israel: livros escolares desumanizam palestinos, diz pedagoga” é o que diz seu título: a opinião de uma pedagoga. Tão somente isso. Nurit Peled Elhanan. Este é seu nome. Mas quem é ela?
Nurit, aliada ao chamado “campo pacifista”, é uma ativista da esquerda radical que, entre outras coisas, expressa em diversas entrevistas sua crença de que Israel é um "estado de apartheid" que "controla a vida de milhões de palestinos" e "se comporta de maneira ilegítima". Sua pesquisa e, por conseguinte, a matéria de Guila Flint, está embebida por esta visão política. Não foi um trabalho sério, não foi uma ONG, seja israelense ou internacional que apurou os fatos, foram apenas constatações de uma ÚNICA pessoa, que tem uma ideologia a vender.
Em matéria semelhante no diário inglês The Guardian, o repórter que a entrevistou teve a decência pelo menos de questioná-la sobre os livros escolares palestinos, querendo saber qual era sua opinião. É bom lembrar que a própria ONU por diversas ocasiões condenou os livros escolares palestinos por incitamento ao ódio, deslegitimação de Israel e antissemitismo. A UNESCO chegou a ameaçar cortar de vez as verbas para a Autoridade Palestina se mudanças enérgicas não fossem realizadas no conteúdo das cartilhas. Sua resposta? “Eles (os livros) são contra sionistas, não judeus”. Mas admitiu que ensinar sobre o Holocausto em escolas palestinas é um grave problema. “Professores palestinos não ensinarão sobre o Holocausto, enquanto professores judeus não ensinarem sobre a Nakba (a forma que os palestinos denominam as conseqüências da guerra de 1948 e o surgimento do problema dos refugiados)”. Nurit, curiosamente defende os palestinos dizendo que eles sabem separar entre judeus e sionistas (o que não é verdadeiro, como mostraremos mais abaixo) e, no entanto, coloca no mesmo saco a tentativa de extermínio de um povo e um conflito por terras. Dentro deste viés surge a acusação de que os livros escolares israelenses são racistas.
Segundo a matéria do Terra, Nurit analisou dezenas de livros para chegar a esta conclusão. Não é o que afirmam outras fontes. Veja o que encontramos em um dôssie a respeito do polêmico livro de Nurit, realizado pelo Centro para o Monitoramento do Impacto da Paz:
“Em ’Palestina, nos livros escolares israelenses: Ideologia e propaganda na Educação‘, Nurit Peled-Elhanan descreve a representação de árabes em livros escolares de Israel como racista. Ela afirma que sua representação é apenas como 'refugiados, agricultores primitivos e terroristas, afirmando que em ’centenas e centenas‘ de livros não havia uma fotografia sequer que mostrasse um árabe como uma "pessoa normal".
Outro artigo inédito, "A Apresentação de Palestinos em Livros Escolares de História e Geografia 1998-2003" - no qual apenas sete livros foram examinados por Peled-Elhanan - foi duramente criticado pelo Centro de Monitoramento do Impacto da Paz, que recentemente teve seu nome alterado para Instituto de Vigilância da Paz e Tolerância Cultural no Ensino, como sendo, "altamente seletivo [em sua] utilização de material de origem, deixando de fora todas as referências que contradizem a [sua] tese", " interpretação deliberada de fatos", “inacurada”,distorcida , e até mesmo se utilizando de “falsas evidências " para expor seus propósitos. O autor, Arnon Groiss, diretor do Centro, concluiu que "a alegação de Peled-Ehanan em relação a esse ponto é claramente falsa ... Trata-se de uma abordagem fortemente politizada e, portanto, parcial, distorcendo o material para produzir uma imagem ao seu gosto." Groiss ainda criticou o trabalho de Peled-Elhanan por esticar a definição de racismo para incluir os casos que os pesquisadores normalmente classificariam de etnocentrismo. “ Para ver o relatório em detalhes, apontando todas as falhas da pedagoga, clique aqui.
Citando a matéria do Terra: “De acordo com Elhanan, não consta nos mapas dos livros a fronteira entre Israel e os territórios ocupados durante a guerra de 1967. "Os alunos nem sabem que existe ocupação. O ensino os leva a pensar que os palestinos são intrusos neste país, os assentamentos (construídos na Cisjordânia) são chamados de povoados e os alunos pensam que não existe diferença entre Ariel (assentamento no norte da Cisjordânia) e Tel Aviv", afirmou a pedagoga.”
Curiosamente a própria matéria se sabota e se contradiz neste ponto. A figura que ilustra a matéria com a legenda: “Ilustração mostra a chegada de novos imigrantes em Israel, com bandeira israelense cobrindo inclusive a Cisjordânia”, mostra claramente as fronteiras de Judéia e Samaria (Cisjordânia), onde esta área aparece em uma cor diferente do resto do mapa (veja na foto).

Bandeira não cobre a área destacada em escuro, que é justamente Judéia e Samária, claramente diferenciada no mapa
Mais ainda. É bom explicar uma especificidade importante do hebraico, o uso da palavra "povoados": a palavra geral existente na língua hebraica para todos os núcleos habitacionais humanos é YISHUV, que significa assentamento, pois vem da raiz do verbo sentar. Essa é a forma corrente de se mencionar qualquer núcleo onde vivem pessoas, seja kibutz, moshav, cidade grande ou pequena, em qualquer local. A mesma palavra é usada para núcleos de habitação humana em qualquer lugar do mundo, em todos os períodos históricos. O hebraico é uma língua com vocabulário reduzido, muitíssimo menor do que o da língua portuguesa, e a mesma palavra é usada para vários contextos.
Conclusão: o uso da mesma palavra hebraica (yishuv) não tem o objetivo de confundir entre os assentamentos em Judéia e Samária e as vilas na Galileia ou pequenas localidades dentro da Israel pré-67, mas sim porque é, e sempre foi, muito antes da Guerra dos Seis Dias, a forma de se referir a estes lugares. Nurit sabe disso e Guila também. A alegação é sensacionalismo barato.
A brasileira, radicada em Israel desde 1978 (34 anos), Judite Orensztajn, funcionária aposentada do Ministério da Educação, com quatro filhos que estudaram em Israel e tendo uma filha que além de ter sido “educadora” (veja explicação adiante), é professora de química no secundário já há mais de 20 anos, traz outro ponto importante à tona:“Os alunos israelenses vivem num país altamente democrático, com imprensa livre, e são expostos a todas as discussões correntes. As escolas costumam convidar palestrantes externos de todas as tendências políticas para dar palestras sobre os temas mais diversos. Nas aulas semanais de "educação", o professor responsável pela turma, denominado "educador", aborda, geralmente nas classes mais altas do ensino secundário, os assuntos da atualidade - de forma que mesmo que os livros fossem como essa autora os apresenta, eles não são a única fonte de informação a que os alunos têm acesso.”
E como a intenção é complicar e não explicar, a matéria ainda traz um componente a mais, que se segue: "O Ministério da Educação aboliu a fronteira entre Israel e a Cisjordânia, não só nos livros, mas também em atos", disse, mencionando a recente decisão do Ministro da Educação, Gideon Saar, de instruir as escolas do país a levarem os alunos para um passeio na cidade de Hebron, na Cisjordânia. Segundo o ministro, o passeio pode contribuir para que os alunos "entendam melhor suas raízes, já que em Hebron se encontram os túmulos de nossos patriarcas e matriarcas".
Veja só como as coisas são curiosas. Em Hebron estão ou não estão enterrados os patriarcas? A afirmação do ministro é falsa? Não se trata de um passeio educacional por área importante para o conhecimento histórico destes alunos? No entanto, isto é trazido como se fosse uma afronta à paz. Agora vejam que curioso: árabes podem viver em Israel. Mais de um 1,5 milhão efetivamente vivem. Têm acesso livre a seus lugares sagrados, como o Monte do Templo ou Esplanada das Mesquitas, como eles o denominam. Mas um judeu pode viver nos territórios? Segundo Abu Mazen, quando for constituído um Estado palestino, ele será “totalmente limpo de judeus”. Judeus não podem visitar patrimônio histórico e religioso seu em Judéia e Samária? É assim que se pretende construir a paz, sem equivalência, sem direito às minorias? Isto não deveria ser considerado uma afronta? E de onde se tirou que visitar Hebron e a caverna dos patriarcas - sabidamente um lugar com relação direta com o judaísmo, não de hoje, mas de milhares de anos, pois a Bíblia assim já relata - interfere na definição de mapas ou em dizer se isto deve ou não ficar em mãos israelenses? Curiosamente, nem esta, nem nenhuma outra matéria de Guila Flint, ou do Terra, abordou a chave gigante que existe na entrada de Belém, que os palestinos usam como símbolo de sua expulsão e para que, conforme dizem seus líderes, “sirva de lembrança para nosso povo, a fim de que não esqueçam que um dia retornaremos as nossa vilas e cidades dentro de Israel”. Isto não merece comentário? 
Uma chave gigantesca (considerada a maior do mundo) encontra-se no topo da entrada do Campo de Refugiados Aida em Belém, lembrando os residentes a insistirem no seu "direito de retorno".
Falando nisso, tocamos num ponto nevrálgico de toda a questão. Guila criou toda esta matéria a partir da opinião de uma pedagoga, que contraria inclusive averiguações da ONU a respeito do assunto. Porém, em anos de jornalismo e de trabalho como correspondente em Israel, solenemente ignorou e ignora violações do lado palestino muito mais cruéis e abertas do que as supostas denúncias que traz aqui. Acusações de ONGs renomadas e de institutos filiados à ONU sobre os livros escolares palestinos, onde dizeres como: “judeus merecem morrer” e outros são comuns, onde todos os estereótipos clássicos do antissemitismo são exibidos, e os mapas, tanto do sistema escolar, como de qualquer órgão público palestino, a começar pela presidência e a Fatah ignoram a existência de Israel e apenas exibem a “Grande Palestina”.
Cartilhas escolares e mapas da Autoridade Palestina
Eventualmente poderíamos entender se ela trouxesse uma matéria exibindo os problemas de AMBOS os lados (mesmo sabendo das falácias existentes em relação às denúncias contra o Estado judeu). Mas somente isolar Israel com tanta coisa grave ocorrendo nos territórios – para não dizer nos países – árabes? Por quê? É a pergunta que não quer calar. E Guila é reincidente neste assunto. Anos atrás, aqui mesmo no De Olho na Mídia, publicamos um comentário a respeito de uma de suas matérias, onde a autora abordava a violência de um grupo ortodoxo judaico contra mulheres em Israel. Na época dissemos que a denúncia era justa, mas questionávamos o porquê de destacar Israel, onde este comportamento vinha de uma minoria que estava sendo perseguida pela polícia e não tinha respaldo dos demais, e não falar das agressões constantes e diárias as mulheres nos países árabes, o comércio de escravas brancas na Arábia Saudita, Sheiks em TVs governamentais ensinando a bater em mulheres sem deixar marca? Tudo isto não merece destaque? Somente Israel, Israel, Israel....? As violações lá não são de meia dúzia de indivíduos e já não são combatidas pela lei? Por que não falar dos locais onde ela tem apoio estatal e a justiça chega a incentivar tais atos? Porque colocar sempre Israel na lente de aumento e ignorar o que se passa ao redor?
Ainda antes de ser eleito presidente em 4 de junho de 2008, Barak Obama disse em discurso diante da entidade judaica AIPAC nos EUA: “Eu não farei nenhum tipo de comprometimento no que diz respeito a segurança de Israel....não enquanto existir em todo o Oriente Médio mapas que nem sequer reconhecem a existência de Israel”. O assunto, portanto não DEVERIA ser novidade para Guila, que como jornalista escrevendo uma matéria a respeito, tem a OBRIGAÇÃO de estar ciente destes fatos.
Conforme denúncia que pode ser vista abaixo em vídeo datado de 30 de março de 2012, uma criança palestina ensina em um programa de TV, como fazer um mapa da Palestina que “apaga toda Israel”:
Será que agora, Guila pode fazer um texto a respeito? Precisa mais? Ou então mencionar o que aconteceu num evento para jovens, patrocinado pelo ministério da educação palestino, onde em grande destaque aparece um mapa com a bandeira da Palestina cobrindo toda a região e apagando Israel, com os dizeres de 15 de novembro de 1988, a data em que Yasser Arafat proclamou a independência palestina e um sinal de vitória?

Falando no ministério da educação palestina, o próprio não nega as violações contidas em seus livros, conforme se pode ver a seguir no trecho retirado de uma reportagem a respeito do assunto: “O material nos livros escolares palestinos oferece uma perspectiva única sobre a atitude palestina com Israel. De muitas maneiras, os livros didáticos refletem o conflito político entre Israel e a Autoridade Palestina. Por exemplo, mapas de Israel nesses livros escolares incluem apenas nomes árabes para as grandes cidades e não mencionam o estado de Israel. Quando questionado sobre isso, o Ministério da Educação palestino disse que antes que qualquer coisa sobre Israel seja ensinada nas escolas, um acordo político deve ser alcançado com o governo israelense. Os palestinos também disputam muitos dos locais sagrados do judaísmo, e os livros didáticos só incluem referências aos locais sagrados islâmicos localizados dentro de Israel.
Uma das questões mais marcantes nos livros didáticos palestinos é a glorificação do martírio. Os currículos, mesmo para os mais jovens, contêm linguagem que glorifica a morte. Quando perguntado sobre isso especificamente, o diretor do Ministério da Educação palestino disse que a Palestina era um país ocupado e que não poderia haver regras ou limites para os palestinos nessa situação.”
Alguns exemplos de mapas escolares da Autoridade Palestina que “apagam” Israel:
Escola para mulheres da Autoridade Palestina exibe como simbolo em sua entrada, mapa que inclui toda Israel


Mapa de livro de "educação nacional" da sexta série
Livro de matemática da sétima série, o mapa é usado para demonstrar quanto tempo de duração leva viagens entre diversas cidades. O mapa trata as regiões existentes como "Palestina" e Jordânia. O texto indica que o mapa foi retirado de um livro chamado "As Nações Árabes e o Mundo". A cartilha escolar foi publicada em 2001 e está atualmente em uso.
E símbolos oficiais palestinos que fazem o mesmo:
Fatah
Ministério do Planejamento e dos Esportes da Autoridade Palestina
Finalmente, o próprio presidente da Autoridade Palestina, Abu Mazen segurando com orgulho mapas que “apagam” Israel:

Abu Mazen segura mapa que engloba toda Israel em cerimônia comemorando libertação de prisioneira. No texto escrito no mapa: glorificação do terror e do "martírio".
Denúncias da organização Palestinian Media Watch relacionadas à educação das crianças e jovens nos territórios, com uma extensa lista de acusações de glorificação ao terror, ódio aos judeus, aniquilação de Israel e outras (incluindo ignorar-se completamente ou então tratar como uma tragédia os acordos de Oslo), podem ser acessadas aqui.
O que não falta é material de qualidade, com fontes seguras, fotos e vídeos para que Guila Flint faça uma matéria com uma denúncia séria a respeito. Será que ela consegue, ou vai continuar com sua lente de aumento míope focada somente em Israel e apostando em fontes duvidosas?
Guila Flint, pode ser contatada através do facebook, onde possui perfil. Poste sua crítica, sua reclamação, faça a diferença no jornalismo! Isenção e qualidade de informação é o que merecemos.
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