Um defensor do nazismo
"Nunca supus que ainda houvesse defensores do nazismo no Brasil. O nazismo ainda cega algumas pessoas".
O artigo "O nazismo em 3D", publicado por Ethevaldo Siqueira, colunista do O Estado de SP, reproduzido abaixo, suscitou polêmica, a ponto de o jornalista afirmar: "Nunca supus que ainda houvesse defensores do nazismo no Brasil".

Leia o texto na íntegra:
Na semana passada, aproveitei o feriadão do Dia do Trabalhador para ver e rever o magnífico documentário gravado em blu-ray disc 3D sobre a II Guerra Mundial, cujo título em inglês é 3D WWII (World War Two), produzido pelo canal de TV History HD e pela A&E Television Networks LLC, recém-lançado nos Estados Unidos. Minha primeira grande surpresa foi saber que a fotografia e o cinema com imagens tridimensionais (3D) já existiam há quase 80 anos. Nunca supus que esses avanços fossem tão antigos nem que fossem dominados pela Alemanha nazista. Quando garoto, ganhei um daqueles calidoscópios binoculares que nos proporcionavam belas imagens 3D, pela visão simultânea de um par de slides coloridos. Segundo meus pais, esses brinquedos já eram populares desde o começo do século XX.A Alemanha dos anos 1930, acreditem, já dispunha de avançadas câmeras fotográficas e cinematográficas 3D. E o melhor de tudo é que seus registros se tornam públicos hoje graças à tecnologia digital do blu-ray 3D e contribuem para a fiel recriação de momentos dramáticos do nazismo e da II Guerra Mundial. Documentos produzidos originalmente em 3D nos anos 1930 e 1940 foram transformados há poucos meses num dos mais belos documentários de TV 3D, focalizando um período crucial do século 20, como o da escalada nazista, de seus métodos, sua violência e sua crueldade sem limites na Alemanha de Hitler.Imagine, leitor, o privilégio de poder resgatar fatos históricos tão dramáticos, com o realismo das imagens tridimensionais, desde a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, até o fim da II Guerra Mundial, em 1945.Um dos pioneiros da fotografia 3D foi Heinrich Hoffman, amigo de Hitler e seu fotógrafo oficial. Espalhadas por todos os lugares da Alemanha, havia milhares de fotos do Führer feitas por Hoffman. Só a cruz suástica tinha maior visibilidade do que os retratos do ditador. Otto Schönstein, editor de livros ilustrados com fotos 3D de propaganda nazista, foi outro pioneiro desses registros com imagens tridimensionais. Os livros que publicava vinham acompanhados de visor ou óculos especiais para a observação das fotos, que podiam ser vistas aos pares, para simular o efeito tridimensional. Seus filmes de cinema 3D eram projetados em sessões especiais para oficiais das Forças Armadas, autoridades alemãs e estrangeiras e visitantes ilustres. É surpreendente que esses pioneiros tenham dominado a foto e o filme 3D, utilizando a velha tecnologia analógica dos anos 1930.O documentário 3D WWII combina o resgate de precioso material histórico sobre a Alemanha, a França e a Segunda Guerra com depoimentos atuais de especialistas. Tudo em 3D. Martin Morgan, historiador, que foi diretor de pesquisa do Museu Nacional da Segunda Guerra, de New Orleans, de 2000 a 2008, avalia esse precioso documentário e relembra a força da propaganda nazista comandada por Joseph Goebbels em festas que exaltavam o super-homem nazista, a mulher, o operário e o jovem. Para estudiosos da história contemporânea, é muito importante rever imagens autênticas que mostram os bombardeios devastadores de Dresden, as cenas do Dia-D, da invasão da Normandia pelas forças aliadas, em junho de 1944, e, por fim, da libertação de Paris. Ou dos soldados alemães que operam canhões antiaéreos de 88 milímetros com precisão mortal.Um momento empolgante do documentário é o das Olimpíadas de Berlim, em 1936, planejadas para exibir ao mundo o poder da nova Alemanha e a suposta superioridade da raça ariana. Vibrei ao rever as vitórias de Jesse Owens, o atleta negro norte-americano que tanta ira despertou em Hitler ao ganhar quatro medalhas de ouro. Mesmo que o leitor já tenha visto muitos filmes ou fotos daquelas Olimpíadas, creio que nada se compara aos registros em 3D do grande evento esportivo. Penso como seria útil se pudéssemos utilizar documentários como 3D WWII como material didático, nos cursos universitários de história ou mesmo de tecnologia audiovisual. Como cidadão do século 20, revi e refleti diante das imagens impressionantes e aterradoras dos congressos nazistas e desfiles monumentais de Nuremberg, os Reichsparteitagsgelände, que terminavam com discursos histéricos de Hitler para multidões de até 400 mil pessoas.Hitler tinha grande admiração pelo Império Romano e pela cultura clássica greco-latina. Chegava a dizer que sonhava recriar uma versão moderna, nazista, do antigo Império Romano. A viagem de uma semana que faz à Itália, no começo de maio de 1938, reforça mais essa faceta megalomaníaca de sua personalidade. Em Roma, ao lado de Mussolini, ele posa como dono do mundo nas escadarias do monumento conhecido como Altare della Patria. Ao retornar da Itália, o Führer determina a um de seus mais famosos escultores, Josef Thorak, que faça estátuas majestosas que representem o “super-homem ariano alemão”. E Thorak faz. Em seguida, Hitler promove a anexação da Áustria, seu país natal, numa operação chamada de Anschluss (ligação ou contato, em alemão). A partir de 1939, invade a Polônia e deflagra a guerra que vai matar 100 milhões.
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A polêmica:
Nunca supus que ainda houvesse defensores do nazismo no Brasil. No entanto, nada melhor do que um espaço democrático para se debater um tema histórico tão importante quanto esse. Primeiro vamos dar a palavra a um leitor, cujo e-mail traz o nome de Marco Antonio Mattar. Embora seu nome não indique ascendência germânica, ele afirma ser neto de alemão. E escreve-me para fazer observações sobre o artigo O nazismo revisto em 3D, publicado na edição de domingo, 06 de maio, do Estadão. É exatamente o mesmo que tem o título O nazismo revisitado em 3D, neste blog.
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A argumentação do leitor Mattar:
“Quando ouvimos falar sobre a Alemanha nazista, sempre nos é passada a história contada pelos vencedores da 2ª Grande Guerra. Que, nesta época, a Alemanha era dirigida por um louco varrido e doente que levou o mundo à destruição. Analisemos os fatos sem apologia e, sim, imparcialmente.
Adolf Hitler não chegou ao poder através de um golpe de estado, portanto, não deveria ser considerado ditador, além do que a maioria esmagadora dos alemães apoiavam o seu “líder”.
Como era a Alemanha na época do nazismo?
- nesta época a Alemanha recuperou a agricultura e o campesinato para alimentar todo Reich;
- levantou o nível do operariado, que pela primeira vez começou a ser respeitado por toda a sociedade;
- encorajou a moral da família, a maternidade, a paternidade, o respeito e a honra;
- procurou encorajar políticas de proteção ao meio-ambiente;
- provia dinheiro ilimitado para investimento em fontes alternativas de combustível, investindo pesadamente em petróleo sintético e geração de energia por variadas fontes;
- eliminou divisões do povo alemão: cada qual dentro das suas aptidões exercendo uma função em prol da unidade nacional;
- recuperou o orgulho de um povo abatido e humilhado;
- reestruturou a educação;
- eliminou a inflação, as crises e o desemprego;
- construiu milhares de quilômetros de estradas modernas;
- estimulou padrões saudáveis de consumo;
- deu aos trabalhadores suas primeiras viagens de férias;
- criou os primeiros resorts para trabalhadores;
- em 1938, Hitler, foi eleito pela revista estadunidense Times como “Homem do Ano”;
- construiu centenas de milhares de moradia dignas para os trabalhadores, cada uma com sua horta, que a família trabalhava com seu próprio esforço;
- instituiu o Serviço do Trabalho junto ao Serviço Militar obrigatório;
- vários avanços na medicina e pesquisa. Isto e muito mais, além do domínio da fotografia e cinema com imagens 3D.
Bombardeios devastadores de Dresden
Ninguém pode negar que o bombardeio de Dresden por mais de 14 horas foi uma grande tragédia. 135.000 pessoas morreram em consequência de um ataque aéreo sem necessidade militar. Uma cidade completamente desprotegida cheia de refugiados do leste, prisioneiros de guerra aliados e russos e milhares de trabalhadores forçados. Este ato foi, simplesmente, um assassinato em massa, um genocídio contra o povo alemão.
Olimpíada nazista
Jesse Owens, atleta negro dos EUA, ganhador de 4 medalhas de ouro, nunca foi ignorado por Hitler. À pedido do COI (Comite Olímpico Internacional), antes do Führer sair do estádio, solicitaram a ele que não mais cumprimentasse publicamente os vencedores de qualquer competição. Tal fato ocorreu quando Cornelius Johnson (e não Jesse Owens), atleta dos EUA, estava sendo laureado com medalha de ouro pelo salto em altura. Após o pedido do COI, não houve mais cumprimentos do “Líder”, em público, durante o resto da Olimpíada, nem para negros e nem para nenhum outro atleta.
Você sabe quem venceu a Olimpíada? A Alemanha com 33 medalhas de ouro, 26 de prata e 30 de bronze. Os EUA ficaram em segundo com 24 de ouro, 20 de prata e 12 de bronze. Esta Olimpíada foi para mostrar ao mundo o surgimento de uma nova, como aconteceu, e não para mostrar a suposta superioridade da raça ariana.
Visita à Itália
Quando a Alemanha invadiu a Polônia foi para reconquistar territórios perdidos pelo Tratado de Versalhes em que cidades com população de maioria alemã, viviam às margens da sociedade. Interessante notar que quando a Alemanha invadiu a Polônia, a Inglaterra declarou guerra à Alemanha, porém quando a Rússia invadiu o leste da Polônia, algumas semanas após, a Inglaterra nem se pronunciou. Estava decretada ali o fim do sonho de uma Alemanha realmente independente.
Ainda existe um grandioso tabu quando se fala sobre os progressos da Alemanha nazista, justamente implantado por quem domina as informações.
Pontuei estas considerações porque, como formadores de opiniões, os escritores, jornalistas etc. não devem passar informações fabricadas, de forma parcial ou tendenciosas. Senão, podem cair no descrédito!
Abs., Mattar”
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A resposta de Ethevaldo Siqueira: "O nazismo ainda cega algumas pessoas"

Prezado Mattar: É curioso, meu artigo está focalizado na apresentação de um documentário audiovisual que reconhece claramente o avanço tecnológico alemão na área de fotografia e cinema 3D. Não escrevi um artigo sobre o nazismo, mas comentei o conteúdo do documentário, com imagens que foram feitas — não pelos vencedores, mas pelos próprios alemães. Só em resposta a tantas afirmativas inverídicas, eu teria razões para mostrar o que foram Hitler e o nazismo.
Veja a incongruência. No último parágrafo de sua mensagem, você tenta justificar sua apologia da Alemanha nazista, dizendo preocupar-se com a ação dos “formadores de opiniões, os escritores, jornalistas etc.” que passam “informações fabricadas, de forma parcial ou tendenciosas”, e que, por isso, “podem cair no descrédito!”
Mattar, você está absolutamente enganado quanto ao que escrevo: não passo informações fabricadas, de forma parcial ou tendenciosas. Assim, não cairei no descrédito.
Você não esconde sua simpatia extrema pelo nazismo e por Hitler. É um direito seu acreditar em tudo isso. Mas, curiosamente, suas informações só se referem a fatos supostamente positivos na Alemanha nazista – omitindo tudo sobre o genocídio de 6 milhões de judeus, sobre as experiências com seres humanos em campos de concentração, sobre a eliminação pura e simples dos opositores. Nada diz sobre as barbaridades cometidas pelas forças armadas nazistas contra as populações dos países dominados. Nem sobre a blitzkrieg.
É claro que toda guerra é, intrinsecamente, brutal. Assim foram os bombardeios devastadores de Dresden. Mas só eles o comovem. O resto que o nazismo fez é colírio. Não dá um pio sobre a guerra expansionista, cruel e ambiciosa que Hitler deflagrou contra o resto da Europa, aliado a Mussolini e a Hiroito (o imperador japonês).
Não perderei tempo em analisar os fatos positivos da economia e da cultura alemãs – como prova da excelência do nazismo. Eu creditaria muito mais às qualidades do povo alemão. A Alemanha de hoje mostra que o progresso desse país nada tem a ver com ditadura ou totalitarismo, já que vive há décadas a plenitude democrática.
É claro que regimes totalitários podem produzir mudanças positivas – na agricultura, na indústria, na educação, na saúde, na tecnologia e no poderio bélico. Mas por que preço? Será que esses resultados justificariam os meios empregados, a eliminação dos opositores, a censura, a defesa sistemática de ideais racistas?
Não é a história escrita pelos vencedores mas pelos pesquisadores e cientistas honestos que mostra a verdade nua e crua: “a Alemanha era, sim, dirigida por um louco varrido e doente que levou o mundo à destruição” – e à morte de cerca de 100 milhões de seres humanos.
Adolf Hitler chegou ao poder por meio de uma escalada de golpes e de violências – a começar do incêndio do Reischstag, para culpar os comunistas. E se transforma, sim, em ditador, com todos os poderes. É claro que mais de 80% do povo alemão, sob a lavagem cerebral da propaganda nazista, apoia Hitler em plebiscito. Assim aconteceu, também, com o Chile de Pinochet. Um plebiscito “legitimou” o ditador com mais de 80% dos votos dos chilenos.
Sobre a Olimpíada nazista, você tergiversa, pois Hitler retira-se do estádio para não entregar a medalha de ouro a nenhum dos afro-americanos vencedores. Não queira mudar a história. Se tem dúvida, veja o filmete do Youtube abaixo:
No seu destaque sobre a visita à Itália, não há qualquer referência aos fatos que eu cito no artigo, sobre a presença de Hitler em Roma, ao lado de Mussolini.
Gostaria, finalmente, que me apontasse um único historiador independente, sério e honesto, que concorda com sua versão das virtudes do nazismo e da justificativa da guerra que a Alemanha de Hitler deflagrou contra o mundo.
Aqui fica o assunto para debate de nossos leitores.
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