'Mãe' de Mulheres-Bomba Suicidas Presa
The Jerusalem Post. Publicado: 4/02 (Associated Press. Tradução: Irene Walda Heynemann)
Uma mulher acusada de ajudar a recrutar dezenas de mulheres-bomba suicidas olhou para a câmera e descreveu o processo: patrulhar a sociedade em busca de candidatas prováveis e então converter pacientemente as mulheres de almas perturbadas em atacantes mortais.
Os relatos, feitos em um vídeo, liberado na terça-feira pela polícia do Iraque, oferecem um raro vislumbre das redes usadas para encontrar e treinar mulheres-bomba, que se tornaram uma das armas mais efetivas dos insurgentes, uma vez que eles lutam sob crescente repressão.
Em uma entrevista exclusiva com a Associated Press, na prisão, com interrogadores por perto, a mulher disse que ela fez parte de um complô, no qual jovens mulheres eram estupradas, e então enviadas a ela para se aconselharem com uma supervisora. Ela disse que tentava persuadir as vítimas a se tornarem mulheres-bomba suicidas como a única saída para a vergonha e para recuperar sua honra.
O acesso da AP foi permitido sob a condição de que as informações não seriam liberadas até o anúncio formal da prisão.
Os exércitos americano e iraquiano haviam feito alegações anteriores, sem fornecer muitas provas, sobre os esforços dos insurgentes para recrutar mulheres vulneráveis, bem como crianças, como atacantes. Essas alegações incluíram declarações dadas pelos iraquianos, de que duas mulheres que se explodiram no ano passado, em Bagdá, tinham Síndrome de Down, cujos relatos não foram confirmados por investigações subseqüentes.
Também não foi possível verificar, de forma independente, a alegação de que os insurgentes enviavam pessoas para que estuprassem mulheres, que poderiam ser recrutadas, então, como mulheres-bomba na explosiva província de Diyala, no lado nordeste de Bagdá.
Mas a suspeita Samira Ahmed Jassim, de 50 anos - que disse que seu codinome era "A Mãe dos Fiéis" - deu descrições incomuns, em primeira mão, das possíveis atividades por trás do pico de ataques, por meio de mulheres-bomba, no último ano.
O porta-voz militar iraquiano, Maj. Gen. Qassim al-Moussawi, disse que a suspeita tinha recrutado mais de 80 mulheres dispostas a conduzir os ataques e admitiu ter planejado habilmente 28 bombardeios em diferentes regiões.
Mulheres-bomba suicidas tentaram ou conduziram com sucesso 32 ataques no ano passado, comparado com apenas oito em 2007, de acordo com números fornecidos pelo exército dos EUA. Recentemente, uma mulher detonou um explosivo debaixo de suas vestes, que matou pelo menos 36 pessoas, durante uma reunião religiosa xiita, no mês passado.
Os ataques refletiram uma mudança nas táticas dos insurgentes: tentar explorar padrões culturais que restringem forças de segurança masculinas de procurar mulheres e usar as tradicionais vestes esvoaçantes de mulheres para esconder cintos ou coletes equipados com bombas.
Em resposta, as forças de segurança iraquianas tentaram recrutar mais mulheres. Nas eleições municipais da última semana, professoras e trabalhadoras municipais ajudaram a procurar eleitores.
Al-Moussawi, o porta-voz militar, alegou que Jassim estava em contato com os líderes mais importantes de Ansar al-Sunnah em Diyala, a última base de operações segura da principal força insurgente sunita, próxima de Bagdá. O grupo é uma das facções com suspeita de ligações com a al-Qaida no Iraque.
Al-Moussawi disse que Jassim "confessou ter recrutado 28 mulheres-bomba suicidas que conduziram operações terroristas em diferentes regiões". Ele não deu maiores detalhes sobre os locais ou datas dos ataques.
No vídeo exibido para repórteres, Jassim descreveu como ela foi abordada pelos insurgentes para incitar mulheres a conduzirem ataques suicidas. Ela disse que sua primeira tarefa era Um Hoda, um apelido que significa "mãe de Hoda".
"Eu falei com ela várias vezes", disse Jassim, que tem quatro filhas e dois filhos. "Eu voltei a eles e lhes dei os detalhes sobre ela. E eles me falaram, traga-a a nós. ... E eu a levei para a delegacia de polícia, e foi onde ela se explodiu".
Outra mulher, a quem ela chamou de Amal, estava envolvida em longas conversações, disse Jassim.
"Eu falei com ela muitas vezes, sentei com ela, e ela estava muito deprimida", disse ela no vídeo. "Eu a levei a eles, e então a busquei de volta e ela se explodiu".
Jassim não deu, no vídeo, nenhuma informação adicional sobre os ataques ou seu papel.
Falando com a AP - uma semana depois de sua prisão em 21 de janeiro - Jassim repetiu declarações, que ela tinha supostamente dado aos interrogadores, de que insurgentes organizaram estupros de mulheres e que ela então tentaria persuadir as vítimas a se tornarem mulheres-bomba suicidas.
Ela disse que ela era "capaz de persuadir as mulheres a se tornarem mulheres-bomba suicidas... mulheres desestruturadas, especialmente aquelas que foram estupradas".
Em muitas partes de Iraque, inclusive na conservadora Diyala, uma vítima de estupro pode ser marginalizada por sua família dela e pode ser tornar uma pária na sociedade.
Os interrogadores policiais não se encontravam no recinto, durante a entrevista de Jassim com a AP, mas estavam em uma câmara adjacente.
Jassim não ofereceu detalhes adicionais sobre seu alegado papel nos ataques, mas sugeriu que ela foi pressionada a trabalhar com a insurgência.
Ela alegou que Ansar al-Sunnah lhe deu uma casa em Diyala, onde ela dirigia uma loja que vende as vestes tradicionais para mulheres chamadas de abaya. Ela acrescentou, entretanto, que Ansar al-Sunnah uma vez ameaçou bombardear sua casa se ela não cooperasse.
"Eu trabalhei com (Ansar al-Sunnah) por um ano e um meio", ela contou para a AP.
Casos de mulheres-bomba suicidas são pouco comuns, mas não desconhecidos, fora do Iraque.
Entre os palestinos, várias mulheres conduziram ataques suicidas com bombas para grupos terroristas, inclusive o Hamas e a Jihad Islâmica.
Também houve casos de mulheres em Judéia e Samária, que atacaram soldados israelenses para que fossem presas, após terem sido acusadas de quebrar regras tradicionais em conduta sexual. Nos territórios palestinos, parentes podem procurar castigos severos, inclusive a morte, para mulheres vistas como desonra para a família.
|